Como surgiram os Saraus?

No Brasil, entre o final do século XIX e o início do século XX, o Sarau era o evento mais elegante da sociedade. E, apenas os seres iluminados — os que tinham gosto pela música e literatura se davam ao luxo de abrir as portas de suas luxuosas residências para promover um encontro entre homem e arte. Um bom Sarau tinha muito champanhe importado, quitutes caprichados que saíam quentinhos da cozinha —trazidos por serviçais. Na sala era obrigatório a presença de um excelente piano de cauda, devidamente acompanhado por músicos… e poetas consagrados — dispostos a exibir-se em voz alta para o requintado grupo. E os convidados vestiam traje a rigor

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Os Saraus chegaram ao Brasil, através da Família real — em 1808 — e, imediatamente conquistaram espaço, no Rio de Janeiro antigo. Eram os famosos ares europeus em solo tupiniquim, nos salões da Coroa portuguesa, em pleno Rio de Janeiro. São Paulo só teve o prazer de abrir os seus “salões”… quando os ricos fazendeiros de café — que não queriam parecer provincianos — importaram o estilo parisiense para seus salões. O gaúcho Freitas Valle foi um dos primeiros a abrir as portas de sua Villa Kyrial, no bairro paulistano da Vila Mariana para a boa música e ótimos vinhos — entrando para a história da cidade e do país, elevando o Sarau a um nono patamar…

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Na Villa Kyrial aconteceram célebres ciclos de conferência, discussões sobre estilo e arte. Debates sobre as tendências na literatura e na política. Os encontros eram tertúlias comandadas por um homem com muito dinheiro, poder político e gosto pelas artes — um mecenas que bancava estudos, movimentos intelectuais e ajudava os artistas a se promoverem. Claro que o apoio do mecenas não era para todos. Dentre os convidados de Freitas Valle estavam Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Manuel Bandeira. Outros salões menos ricos — igualmente elitistas — apareceram na futura Capital financeira do país. Há relatos de eventos pequenos realizados na casa do poeta Mário de Andrade, Olivia Penteado, amiga dos artistas paulistanos e de Tarsila do Amaral, mas eram todos “financiados” pelos mecenas paulistanos — em sua maioria, fazendeiros do Café. . Foi a partir dos anos 40 que os Saraus começaram a perder espaço e os salões fecharam suas portas para esse tipo peculiar de atividade. A sociedade cansou de se divertir com a arte que ela podia pagar, preferindo frequentar novos ambientes, projetados por grandes nomes, sem hora marcada e sem expor seus ambientes. Os Saraus foram ocupar outros cenários — porões das universidades e bares. Ganhou ares de clandestinidade e não demorou para adquirir má fama. Surgia o universo underground — quase marginalizado — que era considerado pouco adequado para senhoras e senhores… por serem cenários esfumaçados e regados a álcool — frequentado apenas por um determinado público: estudantes e artistas.

 


Com a chegada do novo século… os Saraus literários acabaram reeditados para uma versão contemporânea. Um bar da moda abre a porta uma vez por mês para os poetas recitarem suas poesias, na companhia de músico ainda desconhecido do grande público. Menos afrancesados, mais descontraídos, menos esnobes e bastante democráticos. Todas as vozes são aceitas. E não estão mais restritos ao eixo Rio-São Paulo — como foram no século passado. Porto Alegre tem seus saraus que já reuniram mais de 300 pessoas em uma única noite. E se antes, em São Paulo, apenas a burguesia tinha espaço, a periferia paulistana mudou esse cenário. Foi o poeta Sérgio Vaz quem criou o consagrado Cooperifa, com shows de rap e samba, exposições de artes plásticas, recitais de poesia, apresentações de capoeira e peças teatrais.

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Na Casa Laranja, desde o ano passado, aconteceu o Mosaicum… um sarau regado a música, poesia, lançamento de livros, leituras e debates contemporâneos porque a Arte de nosso tempo, precisa de espaço e diálogo. Durante o ano de 2019, o Sarau foi realizado nas noites de sábados e conquistou seu espaço na zona oeste da Paulicéia desvairada. Mas, nesse ano, será realizado nas tardes de domingos para integrar ambientes-cenários e reunir as tribos num encontro contemporâneo.

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