Quatro perguntas para Fernando Heynen

Fale da sua trajetória profissional…
Eu poderia dizer que trabalho com desenvolvimento de conceito de personagens e cenários por acidente ou pela junção de uma séries de fatores que me chamaram a atenção. Desenhar, eu sempre desenhei, porém, comecei a minha trajetória profissional, fazendo arte final para revistas e anúncios dentro de uma agência de publicidade em São Paulo.
No estúdio eu convivia com os ilustradores e via os caras estudando traço, anatomia, finalização. Achava incrível. Mas nunca pensei que era para mim. A qualidade do trabalho era impressionante. Segui diagramando revista e sempre de olho no trabalho dos caras. Um dia um dos ilustradores foi chamado para fazer um cavalo para um layout e eu vi que ele utilizava referências fotográficas para compor a imagem. O fundo de uma foto. A cabeça do cavalo de outra. Corpo dali e patas de lá, etc… Pensei, na minha inocência, “Há, pode usar foto então?” Porque para mim, saia tudo da cabeça deles.
Ficou mais claro ainda o uso de referências, quando uma vez, um professor e diretor da Escola Pan-americana de Arte precisou fazer uma ilustração de um advogado. Ele pegou o fundo de uma foto, produziu a pose de um amigo em uma mesa qualquer, pegou uma foto de uma mesa bonita em um banco de imagem… foi desenhando e compondo a ilustração que ele precisava. O fundo de uma biblioteca. O terno de outra referência. Ali eu vi como funcionava o processo. Existia a criação. Mas não era tudo inventado da cabeça. Podemos buscar referências e usar como suporte para trabalhar na composição.

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Você optou pela faculdade ainda sem ter certeza do que queria fazer?
Eu fui para na faculdade porque tinha essa questão de diferença salarial. Com 19 ou 20 anos mais eu mesmo, eu tinha saído do colegial e para me preparar para o vestibular, me matriculei no cursinho do Anglo, na Consolação. O meu foco era na USP, FAAP e Mackenzie… ou nada.
Na época do cursinho, tinha um professor de História que não só dava aula, como também contextualizava as épocas históricas. Dizia como eram as roupas, onde as pessoas dormiam, que música escutavam, qual a situação política na época. E tudo começava a ganhar um “porque”. A aula era uma viajem e se tornou a minha preferida. Foi justamente nessa aula e com esse professor que tudo mudou e eu fui em direção ao desenho.
Tinha gente que mandava bilhetinho para o professor ler, lá na frente. Eu fazia umas tirinhas com um personagenzinho que era o próprio professor e mandava junto. E um belo dia, ele quis saber quem era que fazia aquelas tirinhas.
Quando levantei a mão… ele me pediu para que ficasse depois da aula, quando me perguntou: “Você tem noção do seu talento?” Claro que eu não tinha. Ainda tentei justificar de onde eu vinha, da agência, falei dos ilustradores profissionais com os quais eu convivia e que meu traço não tinha nem como comparar. Ele quis saber das minhas pretensões e eu falei que iria cursar Arquitetura e ele disse um sonoro “Não”! Disse que eu tinha talento, mão boa e se eu fosse para arquitetura talvez eu perdesse a liberdade do traço livre. Ele foi a primeira pessoa que realmente acreditou no meu talento e eu acabei cursando Design.

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Quando você decidiu trabalhar com criação de personagens e cenários?
Eu tinha superado alguns medos e alcançado um resultado satisfatório. Mas, ainda pensava em personagem somente como um traço bonito. Achava que se o visual estivesse bom, o personagem estava pronto. A mudança veio mais para frente. Ainda na época da faculdade fui fazer um curso de desenho animado, numa produtora que fazia séries para Disney. Em pouco tempo comecei a trabalhar lá como cenarista. Acompanhei algumas produções, mas a maioria do material vinha pronto. Personagens criados, layouts de cena definidos, storyboards com ângulos aprovados. Os cenários vinham com cores definidas e a gente só tinha que reproduzir em ângulos diferentes. O estilo já estava definido.  Tinha bastante trabalho mas pouca criação envolvida.
A primeira vez que eu vi alguém criando um personagem e tudo que envolve essa criação, foi durante a produção de um episódio do Aladdin para a série de TV. Existia um Lobisomem e o desenho que veio, não era muito legal. O Vagner Faria resolveu redesenhar o personagem e enviar o traço para aprovação na Disney e acabou aprovado. Eu acompanhei todo o processo de desenvolvimento de perto. Foi nessa hora que eu decidi que queria trabalhar com isso! Não tinha noção das fases e da complexidade. Mas, eu aprendi que o personagem não era simplesmente um traço bonito e bem feito. Ele tinha todo um contexto para ser levado em consideração. E resolvi que era isso que eu queira fazer na vida!

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Nesse processo você aprendeu a fazer personagem e cenário?
Aprendi que eles tinham que ter vida. Não era só um traço em cima de um papel feito por um desenhista competente. Um pouco mais para frente entrei num concurso de animação da MTV e precisei criar todos os personagens e cenários para o curta. Foi ai que eu reuni criação de personagens ,pensando em personalidade, a história por trás deles, cenários que contassem a história, etc…
O curta acabou selecionado em primeiro lugar e eu o produzi como trabalho final na Faculdade, finalizando-o numa produtora famosa de São Paulo, a Lobo, que hoje é associada a Vetor Zero. Trabalhei com eles por uns 12 ou 14 anos, no setor de desenhos de conceito.
O processo de criação envolve pesquisa, documentação e referências. O personagem assim como o cenário precisam de um contexto para existir, ter vida. Era justamente isso que me chamava a atenção nas aulas de história, do cursinho. Detalhes, envolvimento, emoção.
A narrativa visual é tão forte quanto a escrita. Quando eu vejo a foto da sala da sua casa, consigo saber quem é você, o que gosta, o que faz, onde foi. Talvez descubra até a sua idade. Muito mais do que se você me mostrar uma foto sua.
Criar um personagem e um cenário não é só saber desenhar. É conseguir transmitir uma mensagem para contar uma história.

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